20 novembro, 2007

O MILAGRE


Confesso que não sou amante da leitura, seja uma leitura didática, técnica, antiga ou contemporânea. Mas ao longo do tempo desenvolvi o hábito de folhear revistas velhas e delas extrair notícias de pequenas leituras. As chamadas leituras rápidas.
Um outro dia, exercendo esse meu lado de leitor das pequenas crônicas, deparei-me com uma notícia de que um jovem adepto do protestantismo ou como são mais conhecidos os que cultuam tal religião, um evangélico, este, oriundo da ilha de Taiwan, diria que jovem apesar de seus quarenta anos de vida, havia adentrado à jaula dos leões em um zoológico local e aos gritos de "Jesus vai salvá-lo" e "venha me morder" avançou contra dois leões que ali se encontravam e como é de se esperar, quase que foi literalmente comido pelos animais.
Sou dos poucos mortais, acredito, que por formação inadequada, tenho pouca fé e acredito que nem com minhas faculdades mentais afetadas, acho que não teria coragem de cometer tal façanha. Dizem que a fé move montanhas, mas mesmo assim continuo pouco crédulo.
Ao mesmo tempo da minha incredulidade, chegam-me as dúvidas, já que no passado fui sabedor de um quase milagre ocorrido numa determinada época em uma cidadezinha que residi lá pelos idos de minha adolescência, que, baseado no poder da fé , vivia nessa cidade de nome Pau deitado, ,já há muitos anos o personagem ou herói desse pequeno relato
Nessa referida cidade morava um jovem muito talentoso que atendia pelo pseudônimo de boi tabaco. Diziam que esse apelido ou pseudônimo ele herdara dos pais. Boi herdou do pai que era vaqueiro e tabaco da mãe por ser fumante inveterada. Família humilde mais de grande tradição local.
Boi era um jovem de muita fé, estudioso dos ensinamentos cristãos, conhecia bem os evangelhos e neles se comprazia. Não era freqüentador de qualquer igreja pois acreditava que aonde estivessem mais de uma alma a falar do Criador, ali sim, estava a verdadeira igreja, a casa do pai. Apesar de sua exacerbada fé no Criador, não condenava ou se quer criticava algum credo religioso professado por qualquer um outro ser humano.
Muitos caçoavam de Tabaco por causa de sua fé, de sua contrição e os mais hereges estavam sempre a lhes fazerem troças ou provocar a sua fé ou religiosidade a fim de provar-lhe que era um farsante .Mas fato inédito aconteceu àquela época na cidade que veio a comprovar o quão necessário é ter fé; não importa quem.
Um dia um leão fugiu de um circo que se apresentava na cidade e embrenhou-se na mata existente nas proximidades, atacando animais e provocando pânico em toda a população vizinha.
O certo é que por pura maldade sugeriram que boi tabaco era o único que poderia deter a fera porque era um abençoado como pregava ser e que nada lhe faria mal por ter fé inabalável.
Boi não hesitou um só momento pois confiante em sua fé sabia que nada podia acontecer-lhe.
Ofereceram armas e munições das mais variadas, mas este não aceitou e embrenhou-se na mata levando como único artefato bélico a sua fé inabalável e imorredoura. Já no meio da mata, sozinho, boi começou a ter pensamentos pouco positivos e a fé foi ficando cada vez mais enfraquecida e ele desejou que jamais desse de cara com a fera.
Mas algum tempo depois nosso beato deu de cara com o animal que mostrava-se visivelmente faminto O animal soltou um ruído estrondoso e horripilante e nosso personagem amarelou.
Amarelou toda sua fé ou quase toda. Aí ele começou a correr desesperado; queria gritar "O leão"; mas não conseguia; apenas balbuciava: léo..léo...] E inverteu-se a caçada. Agora era a caça que perseguia o caçador.
Exausto, não tendo mais para onde fugir, boizinho, no limite do desespero teve um breve lampejo em sua mente e recobrou sua fé inabalável. Parou, o leão também parou e olharam-se por alguns segundos que para um deles pareceu uma eternidade.
Nosso heróico personagem ajoelhou-se, fechou os olhos e orou. Orou como nunca tinha orado antes. Com fé, esperança, denodo, insistência.
O silêncio nesse momento era sepulcral. Escutava-se apenas. A leve respiração do nosso herói e as batidas de seu coração e bem próximo podia-se sentir ou perceber intuitivamente o hálito fétido do felino a se espalhar entre o aroma florestal.
Passado alguns poucos segundos que se lhes pareceram eternos, boizinho abriu devagar o olho esquerdo, depois o direito e o que viu deixou-o admirado e certo de que a vida toda tinha escolhido a trilha certa, pois que tem fé tudo pode.
Diante de si , a alguns passos de distância, estava o feroz animal, dócil, ajoelhado também e parecia sorrir-lhe.
Nesse momento ele, nosso personagem beatificado, fechou normalmente os olhos e orou, orou como nunca tinha orado e ao abrir os olhos testemunhou um dos maiores milagres que um ser humano já possa ter testemunhado.
O leão continuava ajoelhado, só que estava mais próximo e garantiram-me os que de muito longe assistiram àquele momento que o leão sorriu, benzeu-se, e disse "Obrigado Senhor por esse almoço".
Como homem de pouca fé até hoje não consigo acreditar nessa estória. E você ? Tem fé ?